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Você sabe quem é William Onyeabor?

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Você sabe quem é William Onyeabor?

Em um momento em que vivemos cercados de algoritmos e ferramentas que monitoram nosso comportamento e reforçam os nossos hábitos, é cada vez mais difícil nos depararmos com algo genuinamente inédito para nossos olhos e ouvidos. Porém, ás vezes, os mesmos instrumentos que orbitam por nossas preferências, acabam pregando algumas peças. E foi num desses raros momentos que (graças à uma playlist aleatória no streaming) conheci uma obra musical extremamente moderna, vibrante, e também desconhecida pela maioria das pessoas, de um músico africano falecido a pouco mais de um ano. Mas saber que se trata de um artista falecido não faz grande diferença já que acabei descobrindo que quase nada se soube dele nos últimos 32 dois anos, quando ele trocou a genialidade de sua música por uma vida cristã e reclusa. Sem contar que mesmo durante seus anos de intensa produção criativa, pouco se sabia de sua real história. Mas afinal, se quem eu estou falando? De William Onyeabor, já ouviu falar? Pois é… Até pouco tempo, nem eu.

Mas como conhecimento só vale a pena quando compartilhamos, segue a ficha do cara: Vindo de família humilde, nascido em 1946 em Enugu, no sul da Nigéria. Juntar alguma grana na juventude e viajou para a Europa, e foi estudar fabricação de discos, possivelmente na Suécia. Ao voltar, na segunda metade da década de 1970, conseguiu montar seu próprio estúdio, sua gravadora, além de uma fábrica de prensagem de discos e uma produtora de filmes, a Wilfilms. E foi em 77 que gravou seu primeiro disco, Crashes in Love, sobre o qual paira a lenda que conta que o disco era na verdade a trilha sonora de um filme homônimo, mas que ninguém nunca viu.

William Onyeabor

Daí de 77 a 85 William gravou 9 discos SOZINHO. São grooves psicodélicos extremamente inovadores e originais. Uma mistura perfeita de funk, afrobeat, muitos sintetizadores e  também uma ácida crítica social. Não dá pra ficar indiferente ou apático ouvindo esse som. O que mais surpreende, além das lendas em torno de sua formação, é a criatividade estonteante de Onyeabor, que inventou sons que grandes profissionais da música ainda sonham em alcançar mesmo décadas depois, em lugares muito mais cosmopolitas que o interior da Nigéria.

A música de William finalmente ficou conhecida para além de Enugu em 85, com o lançamento do seu último álbum Anything You Sow, e os hits When the Going Is Smooth and Good e Atomic Bomb. Considerando a situação econômica da África nos anos 1980, fazer sucesso, mesmo que de forma regional, e com uma produção totalmente artesanal de tudo, pode-se dizer que ele virou um astro da música. Mas foi exatamente aí que sua vida mudou completamente.

Sem fazer um show na vida sequer, Onyeabor descobriu a religião. Virou um cristão fervoroso e se recolheu completamente ao anonimato em sua Enugu. Desde então ele praticamente se recusou a falar com a imprensa, e se dedicou exclusivamente a seus muitos negócios, com os quais ele dava emprego para muita gente da comunidade. Ele ainda foi pastor, diretor do time de futebol da cidade, presidente da União dos Músicos de Enugu, e ainda foi condecorado como West African Industrialist of the Year no fim dos anos 80. Na sua cidade natal, era conhecido apenas como “The Chief”.

Sucesso mundial

A (re)descoberta de William Onyeabor ocorreu em 2010, quando Better Change Your Mind entrou na compilação Nigeria 70, da gravadora Strut. A partir disso, o interesse pela sua obra cresceu por vários países, e foi parar na estratosfera com a criação da Atomic Bomb! Band, um projeto que juntou vários medalhões para regravar suas músicas e finalmente apresentar suas canções para uma platéia. Os integrantes da banda mudavam sempre, e o dream team contou com David Byrne, Beastie Boys, Bloc Party, Blood Orange, The Rapture, Damon Albarn, Jamie Lidell, integrantes do LCD Soundsystem, Hot Chip, Gotye, e muitos outros. Além disso um de seus hits, “Fantastic Man” virou trilha de um comercial do iPhone 7 Plus

Documentário do canal Noisey sobre William Onyeabor

 

Apresentação da “Atomic Bomb Band

 

Grande parte do que se sabe de William Onyeabor hoje deve-se a Eric Welles-Nyström, do selo Luaka Bop (de David Byrne), e ao jornalista Uchenna Ikonne. Ambos tentaram mais de uma vez conversar com ele, mas descobriram que ele era paranóico com sua privacidade, escondendo detalhes de sua vida até das pessoas d e sua própria comunidade. Na primeira ligação de Nyström, Onyeabor respondeu: ‘Eu só quero falar sobre Deus. Eu não quero voltar àquele tempo.” E desligou. Nos resta apenas ouvir sua obra e nos deliciarmos com o som desse mito do funk nigeriano.

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