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Vaga-Lume no escuro

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Vaga-Lume no escuro

Quando, receoso e um pouco trêmulo, encostei ao lado da mesa em que almoçava meu pai, o calendário contemporizava 1988, portanto, tempos muito difíceis para uma criança da classe trabalhadora pedir um presente, ainda mais fora de qualquer data especial que lhe ungisse vontade. Mas mesmo assim, segui em frente, interrompi uma garfada de Bife a Rolé (uma carne de panela enrolada com legumes e selada com um palito de dente) que meu pai angulava e emendei: “Pai, compra um livro pra mim?”. Meu pai, já boquiaberto pela necessidade, assim continuou pela perplexidade, e emendou: “Compro uma biblioteca inteira! Pra livro eu não faço economia.”.

Quando fiz esse pedido era um livro da Série Vaga-Lume que eu tinha em mente, mais especificamente “Os Mistérios dos Morros Dourados”, de Francisco Marins, um resumo feito pelo mesmo para a série de sua trilogia fantástica sobre o desbravamento do Brasil central (Expedição aos Martírios, Volta à Serra Misteriosa e O Bugre do Chapéu de Anta), autor que quase vim a entrevistar em anos mais maduros. Conheci o escritor, a série e a leitura, por meio do voo simpático e iluminado do inseto tema. A contra capa, com a ilustração de toda a série, era um convite às compras e um alimento à imaginação.

Lançada em 1972 é a mais longeva e bem sucedida coleção de livros para jovens já realizada em terras brazucas. Trouxe escritores contemporâneos e de outros carnavais para a seara juvenil, como Marcos Rey, um dos nossos maiores cronistas e contistas, com temas pra lá de adultos, e que foi um dos que mais livros vendeu na série. Apresentou clássicos instantâneos, como “A Ilha Perdida”, de Maria José Dupré, e clássicos já consagrados, como “Éramos Seis”, da mesma autora.

Pois bem, o que me traz à tinta, com reminiscências e loas, é a notícia já amplamente divulgada de que uma das coqueluches da série, “O Escaravelho do Diabo”, de Lúcia Machado de Almeida (é dela também editado pela série “O caso da borboleta Atíria”) já está sendo filmado no interior de São Paulo e não muito tarde deve vir às telonas. Outros títulos, como “O Mistério do Cinco Estrelas” e “O rapto do garoto de ouro”, também tiveram os direitos de adaptação comprados por produtoras e diretores.

É no mínimo empolgante saber que livros tão ricos e repletos de importância para milhões de pessoas serão reintegrados às novas gerações pela linguagem cinematográfica. Sou um latente defensor do cinema autoral, aquele do diretor/escritor, que inova e produz, junto de roteiristas, inéditos escritos visuais. Mas dou o braço, os olhos e a pipoca a torcer pela iniciativa e pelo sucesso da empreitada. Ali naquela série há potenciais filmes de ação, dramas e comédias que muito viriam a representar nas salas de cinema.

filme

O elenco de O Escaravelho do Diabo conta com Marcos Caruso, Jonas Bloch, Selma Egrei, Lourenço Mutarelli, Lara Córdula e o ator mirim Thiago Rosseti. No romance o personagem principal é um estudante de medicina com vinte anos de idade, na adaptação para o cinema, Alberto, o personagem, possui treze anos, e a alteração é intencional e busca o público infanto-juvenil, uma jogada de mestre do diretor Carlo Milani, com longo currículo na TV, também um estreante na telona.

Se fui assistir, sem parcimônia alguma, “O Menino Maluquinho”, digo que lá estarei para assistir à série Vaga-Lume em alguma sala de cinema. Assim como eu, muitos irão. Acredito que uma boa porcentagem do público das futuras adaptações será de leitores da série, que dividirão assentos com uma molecada que talvez tenha adentrado ao mundo desfronteirado da leitura por títulos menos nostálgicos, mas que o cinema tratará de apresentar, sem permitir que o simpático Vaga-Lume ilustrado venha a apagar o facho.


PS: O primeiro que li foi O Outro Lado da Ilha, de José Maviael Monteiro, e depois do pedido feito à hora do almoço, jantei mais vinte e tantos títulos da série.