assinar: Posts | Podcast

Por que meus amigos mudaram?

0 comentários
Por que meus amigos mudaram?

Porque, talvez, eu tenha “mudado com eles”.

por Rodrigo Pacote

Na semana passada tive o prazer de ler um maravilhoso texto escrito pela Ruth Manus para o Estadão, recheado de nostalgia e de levantamentos bastante pertinentes sobre a amizade perdida, o momento onde todos mudam e os grandes amigos que gostavam de criar histórias agora se dignam a contá-las e muitas das vezes parecem completos desconhecidos enunciando os momentos brilhantes da nossa vida.

Inclusive, Ruth completa seu texto demonstrando que nós mesmo nos apresentamos como perfeitos estranhos para aqueles que nos conheceram. Um texto lúdico e bastante bem escrito mas longe de uma realidade prática, e que talvez não estejamos acostumados a encarar.

Esquecemos que passamos por dois momentos críticos em nossas vidas, a adolescência e a vida adulta, sendo ambas complementares, porém muito distintas.

friend

Durante a adolescência estamos buscando nossa própria identidade através de acordos de grupos, como estamos em processo de formação, nos preocupamos muito no espelhamento e dessa forma começamos a inflar nosso círculo de amizades com pessoas que pensam de forma parecida, que nos levam a caminhos parecidos com aqueles que acreditamos ser nosso foco para a vida. Neste momento construimos as histórias que iremos levar para a vida com um quê de saudosismo, os bons tempos onde a intensidade fazia parte de uma rotina bastante turbulenta.

Somos capazes das maiores loucuras por nossos sonhos ainda infantis e não nos importamos com ideias fixas, na verdade nossas ideias são as coisas mais mutantes, mesmo que todas sejam vividas intensamente.

A vida adulta, um período bem menos caótico, ideologicamente falando, e bem mais atribulado, praticamente falando, nos mostra o real viés dos nossos pensamentos. É justamente nesse período que começamos a cultivar e administrar as amizades reais.

Sobram poucos amigos? Sim, sobram poucos. Nos deparamos com uma triste realidade, a de que a grande maioria daqueles que ajudaram a nos construir e a nos alicerçar foram experiências que não fazem parte de uma realidade estável, que no final, a grande maioria sempre foi um grande desconhecido por estar num mar de perdição tão grande quanto nós mesmos.

lone

Se me permitem fazer um comentário pessoal, carrego grandes amigos desde meu período de adolescência. Somos totalmente opostos, mas sempre nos respeitamos e aprendemos que nós acabamos sempre por nos auxiliar no crescimento como indivíduos.

Temos contrariedades tão expressas que, inclusive, um de nós acredita que a terra é plana…sim, ele realmente acredita nisso…e como bons amigos que somos, nos atemos ao fato da discussão e do aprimoramento.

Quanto olho para eles, vejo os mesmos que me desafiaram a crescer em uma adolescência tão distópica e inconstante.

Nesse momento, penso também naqueles que me acompanhavam em minhas teorias e teoremas sobre uma vida melhor e percebo que, antes mesmo de poder dizer que não conheço mais eles, não conhecia eu mesmo naquele momento.

Sejamos realistas, quando deixamos de identificar no outro a amizade perdida de uma adolescência passada, deixamos de identificar a nós mesmos nesses mesmos períodos.

Ruth, seu texto é lindo, mas é importante ressaltar que a realidade vai além do olhar do outro, ou do outro sobre si.

Na verdade, a real amizade é aquela que aponta para o seu próprio ser, e se seus amigos hoje são estranhos é porque, no fim de tudo, você era um estranho para si mesmo quando os conheceu.