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Eu assisti: “Ela”

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Eu assisti: “Ela”

A adolescente chora assim que termina de ler o romance que tomou suas tardes nos últimos meses, a senhora grita com a TV ao ver a vilã da novela trair a confiança da protagonista, o pai de família fica deprimido ao ver o artilheiro do seu time ser vendido para uma equipe européia. Essa gente por acaso é maluca? Desenvolvendo sentimentos genuínos por pessoas que nunca viram ou nem sequer existem. Eu duvido muito. Não há diferença alguma entre esses exemplos citados e aquela hora que você fica petrificado ao assistir uma cena de grande tensão em um filme de suspense ou da alegria que um final feliz proporciona depois de ler uma história cheia de alternâncias. Não importa de onde venha a origem da gargalhada ou da lágrima, seja da pessoa amada ou do personagem preferido o efeito emocional é o mesmo.

Viver hoje em dia, como muitos sabem, não anda muito fácil. Vivemos atolados de expectativas, angústias, obrigações, curtidas, retweets e visualizações. Calma! Isso não vai ser um daqueles textos chatos que reclamam da modernidade se utilizando da mesma. Mas ter contato com tanta informação faz com que precisemos cada vez mais de alívios emocionais, venham eles de onde vierem.

Foi olhando para as pessoas desse tempo e dessa época que Spike Jonze criou essa história futurista (mas nem tanto) e humana (mas nem tanto) que a conta magistralmente em “Ela” (Her no título original). No filme conhecemos Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um cara que poderia muito bem participar de um dos episódios do nosso Podcast quinzenal. Ainda triste por estar saindo de uma separação e que trabalha em uma empresa que produz cartas escritas à mão para quem quer expressar suas emoções. Um belo dia ele decide atualizar o seu sistema operacional, para uma versão dotada de uma inteligência artificial revolucionária que propicia uma total interação com o usuário. E aí conhecemos Samantha (voz de Scarlett Johansson), o novo sistema do computador de Theodore que passa não só a organizar sua vida, como a mexer com seus sentimentos. E com os nossos também.

O que começamos a ver a partir daí é uma verdadeira e completa história de amor. Passando por todos os estágios de envolvimento que passa um casal, desde os primeiros contatos bem humorados até as discussões de relação. Durante todo esse processo vamos, junto com o protagonista, nos perguntando se os sentimentos são genuínos ou se tudo é uma simples projeção de alguém muito triste e solitário. E a resposta que queremos é a que realmente se apresenta: SIM! Claro que sim.

Ter certeza desses sentimentos nos leva a tantas perguntas. Quantas vezes, no mundo das redes sociais, um post malcriado te fez chorar? Por acaso é falsa aquela sua alegria quando uma pessoa querida elogia uma foto sua? Deixar de seguir o seu amigo que te inferniza com mensagens diametralmente opostas às suas idéias, não te traz alívio? Bloquear alguém de todos os seus contatos virtuais não simboliza realmente a morte dessa pessoa pra você?

Muito antes do que imaginamos a grande dúvida sobre os sentimentos de Theodore por Samantha, que inicialmente parece ser o grande núcleo dramático da história se esvai e o que se descortina é uma lição de humanidade que espanta até os mais céticos. Assim como na lei de Moore, que prevê que um transistor dobre sua capacidade de processamento pelo mesmo custo produtivo em 18 meses, as pessoas evoluem intelectual e emocionalmente. Essas mudanças muitas vezes nos levam para outros caminhos, outras amizades, outros relacionamentos, e isso não é ruim, muito pelo contrário é muito bom e nos faz bem.

O que fica na cabeça de cada um depois da cartarse final da história é que não importa de onde venham suas alegrias, tristezas, esperanças ou amarguras. O que faz diferença na vida de cada um, o que fica para além das mesas de bar, das camas desarrumadas, dos tapas nas costas é o que fazemos com esses sentimentos, como lidamos com tudo isso. E libertar aqueles que amamos da prisão de nossos corações também é um amor. Portanto, amem e dêem vexame meus amigos. Afinal, o mundo sempre precisa de mais amor.